quarta-feira, 20 de junho de 2012

Fim

Dei alta pra minha psicóloga, decifrei segredos indecifráveis e a verdade verdadeira se sobrepôs ao que eu achava real. Tomei o chá da consciência, da resplandecência e tudo o que eu queria saber se materializou diante dos meus olhos e das sensações.

Eu morri, me matei, transformei-me em luz, flechei minha escuridão e o que era estigma se desfez em pó, de modo que, ao me olhar, olhei o todo e não me sinto mais ensimesmado e necessitado de cantar-me auto exaltação... tudo é tão pequeno e efêmero diante do que é.

E é! Existe!

Portanto, hoje abandono meu blog como abandono o eu que ficou, que está ficando, símbolo do meu ego e do meu passado, criado à partir de outras questões em outra época, enterro aqui uma era e começo uma nova, iluminada.

A criação, partida da essência do ser para um bem maior será trabalhada e você poderá me encontrar no

http://criadoescrito.blogspot.com.br/


onde o eu existe, sem outros eus ou eus mascarados de psicologia egocêntrica.

E o que fica, fica, muita luz e mudanças para o que vem...

vem...

vem...

vem...

VEM...!

[Evoé] 

O desacorrente

Eu te matei de mim
Tirei o ti de todo meu eu
Mudei
Transfigurei
Renasci
Me libertei dos meus fantasmas
Não tinhas culpa
Nunca tivera
É uma nova era
que me espera
Sem ti,
Pra mim

Eu te tirei de mim
Com toda a honestidade
Liberdade de verdade
De ser
Não de esbórnia
mas de entrega
pessoal
Ao que sou
Ao que serei
Te agradeço
e lamento
mas não dava pra seguir

Eu te libertei de mim
Pra voar
Pra matar a sua sede
em águas claras
verdadeiras
Para o que tendes a oferecer
Que é muito
Que é demais
Não sou mais
O seu rapaz
Sou meu
Sou eu
Não seu
Não mais
Sou mais
Adeus.

Acorrentado

Às vezes eu me pergunto
Por que me pergunto tanto
e tanto às vezes me faço porque?

Tem hora que sinto
que o sentimento só varia
e a sensação tem várias horas

Por vezes eu penso
que pensar não é tão preciso
e que a precisão é não pensar

Por horas eu me apego
ao apagado de notar
e me apago no apego

Tem vezes que eu sorrio
e não há infelicidade
e me acorrento nessas vezes

Nessas vezes de verdade...

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alegria

Alegria física
Empacotada
Alegria zonza
Engarrafada
Alegria efêmera
Desnaturada
Alegria semântica
Aprisionada
Alegria posta
Impressionada
Alegria estúpida
Desamparada
Alegria desforrada
Famigerada
Alegria autêntica
Destemperada
Alegria supérflua
Inusportável
Alegria esperada
Memorável
Alegria romântica
Insuperável
Alegria
Indispensável
Alegria
Insustentável
Alegria

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Outra

Marília acordou depois de estar drogada de inércia. Levantou-se bamba do piso frio e sentiu um afogamento cerebral lhe mover pra frente. Estava caída.
Algum elástico de infelicidade, lhe fez buscar a si própria pelo mundo, a fim de se reconhecer e se estimar. Apanhou o vestido verde, a sandália cinza e os óculos escuros, depois andou... apenas andou.
Parecia atraída pelos espelhos pelas ruas, para esconder a ferida, aturdida se olhava, até se admirava, concluindo um pensamento, era um inflador de sua moral refletida no visual. Se se visse gostaria, e era essa sua necessidade.
Os espelhos estavam cada vez mais próximos e sua cabeça, antenada, apontava o seu olhar, olhando pra fora, pra dentro melhorar. Então, acabou sua jornada numa avenida movimentada, com a lua ensolarada. Não havia portas espelhadas, carros estacionados ou vitrines embaçadas, o que havia era o instrumento de sua agonia passando em alta velocidade.
Precisava se olhar e não podia se ajeitar, estava presa em seu existir. Marília estava presa em si. Sem se olhar, sem olhar, só conseguia lamentar... se entristecer...
Marília...
Então...
Matou.

terça-feira, 29 de maio de 2012

25/05/2012

Levantei de janela aberta, lavei bem os olhos pra enxergar e vesti qualquer coisa. Não pus os óculos escuros, queria ver tudo como era, também não coloquei o fone de ouvido, a fim de escutar meus próprios pensamentos. No meu peito, uma aflição, que molemente comprimia meu esterno. O tempo onde eu vivia estava pacífico, dando uma sensação de plenitude, falsa sensação, falsa plenitude.
Eu era o espectador de mim, lutando comigo mesmo pra andar sem me assistir.
Voltei pra casa pior do que saíra, o corpo talvez mais leve, mas a cabeça pesava uma tonelada, as costelas também. Estavam cheias, como eu. Era o sexagésimo sexto dia que eu tentava a mesma coisa, hoje é dia seis e eu ainda não consegui colocar meus demônios pra fora.

Platônico II

Um dia eu olhei pro céu e desejei um amor, ele não veio. Pelo contrário, caíram genéricos e mim, alguns que me quebraram, alguns quebradiços, outros cabrestos e outros que eu quebrei.

E então... te conheci você bradava, eu era o ouvinte e já lhe admirava, não sabia dizer se era bonito, mas me perguntava.
Os dias passavam, você me julgava  eu te ouvia, nos distanciamos e você me notava, de uma maneira diferente contundente com o que eu já pensava de você. Mudara, o corte de cabelo e a barba. Seus olhos apareceram e a minha intenção também. Quando dei por mim, já estava dado, dando pra imaginar nós dois sozinhos. Eu ouvia muita coisa de você, coisas ruins e as boas que já sabia. A fantasia dos meus dias era sua imagem me dando atenção, me sendo carinhoso, me admirando, tanto quanto eu admiro.
Temos vinte anos de diferença, minhas sensações são muito amistosas, mas eu só te conheço superficialmente, de palavras, brincadeiras e explanações.

Olha só, hoje olho pro céu e não peço mais nada, fico a imaginar uma relação inimaginável, que me faria feliz, mais encantado com o mundo.
[Sirius]

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Fuga do Papagaio

Quando tornava-se sério ou aborrecido, caía-lhe o resto do rosto, sustentado pelos cílios inferiores, talhando seus olhos em frios e indiferentes, quase cruéis; a boca, habitualmente carnuda, era agora quase uma linha de tão fina.
Era este rosto que fitava o espelho, especificamente nos olhos, com um mundo de engrenagens invisíveis funcionando dentro do crânio, este já coberto de inutilidades. Pedro desviou os olhos e abocanhou seu copo de café semi frio com conhaque, bebeu, engoliu, suspirou. O rosto ainda caído apontou para o fundo do copo e um quase nada de satisfação perpassou seu interior... Nada como um pouco de álcool para compensar um coração aflito.
O medo inconsciente que tinha de si próprio o levou a caminhar até o incensário e dar-lhe função. Em seguida acendeu outro cigarro, sentou-se à poltrona velha e olhou a vaga claridade que entrava da janela. Cerrou o cruel olhar e divagou em sua mente, longe de meditar, sentiu os lábios se descontraírem pouco a pouco e iniciou em si um processo de putrefação externa: Pedro acordava dolorido, comia solidão, passava a tarde vazio, bebia amargurado, fumava inerte e dormia agoniado. Era em si um enterrado, era o fim de um presidiário, pois os presos tinham companhia, Pedro nem tinha sábado.
Na segunda da segunda fuga, em que as pulgas faziam mais sentido, Pedro se viu ensimesmado confrontando um outro frasco, que não os de alegria engarrafada, era um traço de caveira que lhe causava vertigem no olhar. Pedro nem tinha sábado...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não é uma Hora da Brisa!

"A Nasa, a agência espacial americana, divulgou nesta quarta-feira (16) que 4.700 asteroides podem ser potencialmente perigosos para a Terra, segundo dados da sonda WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer), que analisa o cosmos com luz infravermelha.

A agência informou que as observações da WISE permitiram a melhor avaliação da população dos asteroides potencialmente perigosos de nosso sistema solar. Esses asteroides têm órbitas próximas à Terra e são suficientemente grandes para resistir à passagem pela atmosfera terrestre e causar danos se caírem no nosso planeta.


Os novos resultados foram recolhidos pelo projeto NEOWISE, que estudou, utilizando luz infravermelha, um total de 107 asteroides potencialmente perigosos próximos à Terra com a sonda WISE, para fazer prognósticos sobre toda a população em seu conjunto.Segundo a Nasa, há aproximadamente 4.700 deles - com uma margem de erro de mais ou menos 1.500 -, que têm diâmetros maiores que 100 metros. Até o momento, calcula-se que entre 20% e 30% desses objetos foram localizados."


[Fonte]
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Notícias assim são até que comuns, sobre asteroides, surgimento e desaparecimento de planetas e estrelas, o que ocorre com a camada de ozônio, o sol e o aquecimento, a lua e o que ela causa...
Esse é o tipo de informação que me conecta com o universo, que me faz olhar ainda mais para cima e enxergar essa humanidade grandiosa tão pequena e insignificante.

Deveríamos todos olhar para a nossa vida do ponto de vista de um ser feito de átomos, parte de um único planeta que convive com E.T.s variados da mesma espécie e que reconhece o seu habitat tal qual reconhece os outros. Penso que isso traz calma, paz interior e exterior e tranquilidade da hora de levantar a cabeça até a hora de deitá-la de novo.
Algumas músicas podem falar por mim...

[Cássia Eller - Queremos Saber]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cardume


Há uma urgência em escutar, uma urgência que ultrapassa a urgência de aprender. Mas aprender a escutar é uma urgência, que ultrapassa os outros aprenderes, que tem de atravessar nós aprendizes. Somos de carne e osso, tentamos por em pauta a alma, mas só sai fala, é como se nossa alma fosse fala, e não é! Não pode ser!

Sensação. Sentir.

É mais plausível o que, falar ou sentir? Exteriorizar, não só pela palavra, talvez não seja o tempo todo importante, é só sede de imponência, descoberta do inconstante.
Mas o que é importante? O meu fazer teatral ou o coletivo, nesse caso? Natural é sermos cardume, mas afogar-se é só opção. Há sempre de lembrar em deixar a cabeça fora d'água, pois o divertimento, a descontração, a festa e o coleguismo, excessivos, nos afastam da montanha, que é o real motivo pelo qual nadamos.Saibamos, pois: cardume somos, não peixes seguidores.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Platônico


A semana se arrastara para um louco apaixonado de amor platônico. Com o coração despedaçado, eu via vitrines, pisava no mato, em busca de um meio pra largar esse estado. Então, corri, corri com a intenção de meu coração ser comprimido na coluna e sair pelas escápulas, não que já não houvesse um buraco em meu peito. Caí em cima do meu orgulho e lá beijei o asfalto... Ah, responsável pelo meu relato, e tu intacto, tu que nunca me amaste, vós que sabes que a sorte não arrebenta dos dois lados, você que conhece os segredos da vida e da morte, só não desvendou o meu olhar.
E onde estais? Prestes a se casar e em Julio Prestes se alojar... Talvez eu volte a olhar o mar, donde dois golfos se cruzaram e um deles virou seguidor do outro, mas por hora eu me resumo a sentar no quinto andar, sem areia, sem sol... sem você.
Me encerro no cinzento renitente, com a tevê de companhia e lembranças inexistentes.
E com o que tenho, eu tento, perseguindo um outro intento, mas que é só um, é fruto de desalento. Neste caso, não há órgãos, é só remédio, e como tenho que esperar que sua vida seja feliz: parabéns... pelo casamento.

[Por Sirius]

Hora da Brisa: que brisa é essa?

Já repararam que o 6 vira 5 e o 5 vira 1? E o 6 sempre será 1 se contarmos 10 de 5 em 5, neste caso o 10 vira 5 e no inverso o 1 vira 10. isso porque ainda não citei que o 7 pode ser 2, o 8 pode ser 3, o 4 pode ser 2, o 3 pode ser 9 e o 5 pode ser 6. Mas uma coisa não muda, se contarmos de 5 em 5 no sentido inverso, o 3 sempre será 3, mas não exclusivamente.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

De Amor

Acordar com teu olhar
Despertar com o contemplar
é como encarar o mar
É como vento no voar
é como a imensidão da vida

É como o dia de partida
de um mal lugar
É como abrir a porta esperançada
garantida pra viver
É como renascer
após desfalecer.

O brilho, instante único
como luz num beco escuro,
é como escada em poço fundo.
Acordar e te olhar
é coisa linda, pra sonhar
é pra um louco se entregar,
é pra devoto ajoelhar.

Te sentir no coração
dói, mas não fere não
Cura a usura do bater,
vira espasmo e convulsão
carne vinho do viver
Bate e vive por você
Nós
Só temos a crescer.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O que existe

Carminda era uma santa, todos os dias trilhava seu caminho de fé em uma estrada de terra que ligava nada a lugar nenhum. O motivo? Peregrinação. Pagamento de seus pecados. Acerto de contas com o divino e catarse por uma vida de glória. Ao fazer todos os dias a mesma coisa, sentia-se lavada do que não devia permanecer em si e útil para com essa humanidade tão herege e perdida.
Um dia, Carminda pegou essa estrada e, ao chegar ao fim de mais duas horas cansativas de caminhada, se deparou com mais ou menos vinte homens queimados de sol que transformavam aquele meio da pior maneira. Carminda se aproximou deles.
- O que estão fazendo?
- É o progresso, dona.
Carminda ficou imóvel.
- Quem é que ta mandando fazer isso?
- É o prefeito, dona.
Carminda permaneceu imóvel.
- Quem são vocês?
Os homens ficaram imóveis, talvez refletindo a pergunta no olhar.
Carminda deu as costas e refez o caminho, sendo atropelada por um carro grande que passaria dali a três semanas. Santos não existiam. A estrada existia, com a terra sob o asfalto e com corpos sobre a terra. Pessoas não existiam...

Hora da Brisa: Música Eletrônica

A música eletrônica é o som da atualidade, um estilo de música puramente contemporâneo, música nova, que se renova.
Ela acessa mais os jovens (quase que somente) por eles serem dessa época, terem nascido junto com a música e por estarem vivendo o tempo que a sonoridade remete: atual, doente, contagiante, com "pressa", alucinógena.
Adultos, seres de outra geração, até gostam, mas não enlouquecem com a batida, o som, a brisa...

Gostando ou não, tendo no mp3 ou não, você, que anda na casa dos vinte, com certeza acaba se contagiando com esse tipo de música que é cor, figurino, cenário, luz e loucura, tudo ao mesmo tempo.


[Tinha que ser a Dona Madonna]

domingo, 22 de abril de 2012

Julgamento

A estrutura da casa estava vindo a baixo. Marília corria e se escondia em todos os cantos, mas não podia ser invisível a seus olhos, mesmo que os fechasse. Pedra sob pedra a ameaçava, mas de maneira nenhuma a atingia, e de maneira nenhuma ela rechaçava. Seus machucados eram originados em seus tropeços, desatenções, quedas, tudo o que já estava no chão.
A geladeira estava inteira, parecia intocada, Marília a viu de outro cômodo. Incomodada, receosa e abstinente, focou a direção, desfocada em visão, trôpega, limitada a pensar o que a esperava quando abrisse a porta gelada.
A chuva de concreto se acentuava, Marília, em seu descaminho, tirou de seu caminho, utilizando-se de seu sangue e carne, seus livros, cadernos, o fogão, todas as garrafas, as caixinhas lacradas, as embalagens divertidas, o arpão... Já com a mão na lateral da porta, um pedregulho a atingiu em cheio, no rosto, arremessando-a contra a pia, estraçalhando o que ainda resistia. Marília já não assistia, ia sendo engolida por sua batida, acelerada, descompassada, como se fugisse de si, mas sua mente já estava inteira inconsciente, sua casa já estava inteira derrubada.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Anti natural


Come cereal porque é matinal
Veste branco em reveillón porque é casual
Feijoada quarta-feira, porque é tradicional
Paga faculdade para ser profissional

Come chocolate para ter felicidade
Bebe cerveja porque é sexta-feira
Fuma uma maconha pra ficar doidona

Faz sexo com homem porque é sensacional
Alisa o cabelo pra ficar fenomenal
Lê um livro por ano pra ser intelectual
Faz a unha e pinta o rosto porque é o usual

Na verdade essa menina
é uma anti natural
Na verdade essa menina
nem pensa sobre o real
Na verdade essa menina
junta os seus poucos reais
bebe breja aos finais
Se acabando enquanto folga
E se não folga se afoga
Almejando sempre mais
Na verdade essa menina
Nem sabe, descansa em paz.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Importância à Impotência

Se eu soubesse divagar
Não seria devagar
Corro a uma velocidade
que ninguém pode almejar

Decisão ou contra mão;
Gostar ou não gostar;
Resolver o lado então;
Ser
Não ser
Eis a questão
E discute em discutir,
Conviver, repercutir,
Não é tranquilo existir
Por aqui ou por ali?

Em tempos de querer morrer,
Acordar pra viver
Aceitar o viver
É um exercício a exercer.
Em tempo de guerra fria
meu silêncio é ilusão
de um corpo embalsamado
que marina em solidão

Tem um peso morto em mim
Tiro ou deixo resistir?
Não consigo me expelir
Eu não posso mais seguir
Estou preso em meu pulmão
Tensionado o coração
Como posso ser feliz
Se a existência é assim?

Eu iria pra você
Mundo, eu seria seu
Se a cegueira persistir.
A comida me comeu.
Sem lutar comigo mesmo
Vagaria, auto-desprezo
Ou seria maravilha
Ou me desvaneceria...


---


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Hora da Brisa: Se desespero


A irresponsabilidade o fez se drogar
O fez masturbar
O fez beber
Sem nada mastigar

Cássia estava com ele
Cássia estava pra ele
Cássia cantava com ele
Cássia não era ele.

Num súbito ataque de prazer
Caminhou carente
Contando as horas
Contando os tempos.
Desculpando-se a toda gente.

Por existir?

A irresponsabilidade o fez pegar
A bicicleta e pedalar
O fez cair
O fez gritar

O fez livre de si mesmo
Preso a uma liberdade.
A vontade de só ser
O fez gemer, o fez berrar.

Tentou ser neutro
E enxergar
Mas é tão sujo
Quer se livrar!

Os caminhos dos seus dias
Eram todos conturbados
Não sabia quem seria
Nos dias após seu parto

E ele segue procurando
Procurando por um eu
Que se existe nasceu surdo
Entranhado em mim, no meu

E tem olhos muito atentos
Que olha, se olha e chora
Tem a boca equivocada
Que fala, come, mas não ora

As suas mãos só dirigem
Em sua vida a bicicleta
E tocam corpos mui bem vindos
Que existem e acertam.

Risadas.

Coragem.
Eu preciso de coragem.
Eu confesso, sou covarde.
Mas não quero ser assim.

Ih, é o fim...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ausência

Marília se cobriu com o lençol branco, se sentou em sua cama branca de fronha clara e olhou pras paredes alvejadas do seu quarto. A porta branca, cerrada, lhe causava uma sensação que não conseguia desbloquear. Coberta de branco, se levantou, foi até a bolsa transparente esquisita e tirou um chocolate branco de embalagem colorida.
Abriu.
Comeu.
Nada podia bater aquela sensação agonizante de prazer que entrava pela boca e lambia a garganta docemente, incrívelmente.A saliva escorreu e Marília então mordeu novamente, eloqüente.
Acabou.
A luz branca piscou e Marília se assustou.
Olhou de novo pras paredes brancas e se abaixou, tirou mais um chocolate branco de embalagem colorida e o engoliu.
Atraída pela porta, tirou-a de sua visão e seguiu o corredor. Passou pela tinta branca que penetrava na parede quase que emocionalmente, e desceu os degraus brancos rumo à geladeira.
Abriu.
A luz branca a invadiu, a vontade também.
Dentro daquele ambiente aguado, havia uma infinidade de chocolates brancos cobertos com uma embalagem colorida.
Deprimida, Marília puxou uma cadeira branca, sentou-se e, iluminada pela luz branca da geladeira, apreciou os chocolates brancos de embalagem colorida, ignorando a cândida lua que a observava do lado de fora da janela bege.
As únicas coisas que ficavam fora de Marília eram as embalagens coloridas, que iam sendo jogadas no chão, à medida que os chocolates iam pra dentro, a fim de curar o que ela não podia ver.
Fazia frio fora e dentro do lençol.

Não morra sem ouvir:

Hora da Brisa: Velho X Jovem

O problema dos mais velhos (pais, avós, tios, alguns tipos de professores e etc...) é que eles são tão apegados em sua idade que se acham "poderosos" num aspecto: eles não escutam os jovens e são incapazes de compreender seu ponto de vista, tratá-los como pessoas que tem suas razões e complexidades como ser humano.
Para eles, o jovem não merece ser levado a sério, só que tudo isso fica no plano inconsciente. Como uma hierarquia. A única coisa que eles observam é o modo como a palavra lhe vem proferida, podendo até se magoar com isso, se apegando à forma, e o interesse não gruda no conteúdo que se segue à fala. Logo, a interpretação do que foi dito fica completamente distorcida, levando o ignorante a conclusões errôneas da realidade.
Escale se for capaz.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Tudo Pedro


Estava Pedro sentado com as costas no encosto, os óculos escorregavam pelo rosto suado, a cabeça pendurada estava a olhar o chão, seu cigarro pousava no incensário, há muito salpicado de cinzas da nicotina. O dia estava claro, mas somente gotas de luz entravam pelas frestas enegrecidas da madeira velha.
Pedro tragou. Pousou. Esperou.
Parecia que uma atmosfera elefante se instalara ali, e só isso restara. Tudo estava abandonado, os móveis, o teto, o outro quarto, os brinquedos, tudo estava empoeirado, Pedro estava empoeirado. O papagaio já não estava empoleirado, voara também, precisava de “novos ares” também, também viveria feliz e talvez também desejasse o melhor pra Pedro. Seu coração já nem se sentia pedra, mas a cabeça se sentia apedrejada. Pedro suspirou, olharia pro relógio se ele existisse, e quase se aborrecia com a demora.
O telefone tocou. De repente tudo levantou vôo, o cigarro, a escuridão, o suor, os óculos. Pedro estirou a mão para atender, um raio de esperança germinava de sua fotossíntese e então estacou. Pedro petrificou, a mão já não tencionava, o peito já não repousava. Será que tudo estava voltando? O telefone prosseguia tocando enquanto o veneno fazia efeito, e então, Pedro caiu da cadeira, derrubando a mesa, o cigarro, o incensário. Tudo sujou sua roupa suada e a cinza do cigarro fez uma sopa indigesta com o suor do homem. A dor lancinante apagou as luzes do aposento e o telefone então parou de tocar... e Pedro parou de respirar.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Loja de cd


- Tem um risco nesse disco
que inibe a perfeição
tem a terra projetada
e a lona sob pressão.
Ele roda e reproduz
reproduz-se e não produz

(Será que estão ouvindo?
Será que estão escutando?)
Pode ser que os ouvidos
virem olhos contemplando
que não se deixa afetar
somente se deixa chorar

"Tem uma sujeira nessa face
que reflete o mal lugar
deslocado do inteiro
que só faz ele riscar"
Se estragar tem que pagar
Se for meu tem que comprar

Não consigo-imos não
olhar pra toda a perfeição
que embalada e lacrada
nos instiga à aquisição
e o que importa fica assim
enlatado em souvenir
resumido no consumir.

-


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Homem-Peixe Homem-Lua


Se a lua não fosse tão distante
Talvez me ouvisse ressoante
a exaltar-te belo canto

Se meu pranto não fosse uno
Me sentiria cardume
e a lua cairia no mundo

Óh, lua aprisionada
pareces tão perdida
no meio da chuvarada

E quando passar a tormenta
há de dissipar-se a cinzenta
massa fria a qual me lamento

Mas se fosses de maresia
encararia a tempestade
em corpo de peixe, fazendo sua parte

Se fosse conjunto não morreria
Serias eternizada
Lua bela e solitária
E sedentária

Eu condeno tua vida
condeno a melancolia
e a calmaria em que te assentaste

Tudo pode lhe acontecer
e tudo acontecerá
homens, máquinas, pedras, luzes
e sofrendo sempre estarás

Óh, corpo paralisante
que de excitante não tem nada
só há contemplação

Talvez o carma dela
seja um nosso, a vaidade
de se olhar no mar
projetando uma vontade

E o carma do pobre peixe?
Talvez seja a comunidade,
pois se andas deslocado
és caçado e aprisionado...

e solitário

Se a lua fosse peixe
talvez acabasse bife,
mas viveria livre
num mundo de esquisitice

Lá em cima flutua condenada
Sem maior afetação
só a de ser contemplada
contrapondo sua intenção

E voltamos à vaidade
à vontade tantalizante
Seremos belos como a lua
se formos peixes praticantes.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Doente de existir



Nada falta pra humanidade
que não um soco de vontade.
Nada falta pro ser humano
do que um sopro esperança.
Estamos presos num balão
De coca fresca e mente insana

A realidade ainda não foi visitada.
A realidade ainda não está mostrada.
A produção é ilusão de um macaco em evolução
que vai chegar a ser humano
quando assumir o eu macaco
Que vive aos cacos, em extinção
Cultua o caos e a progressão

Só o amor é o que nos resta
Só ele nos faz o que presta
Ele nos inspira a ser alhures
E do alhures nos faz poetas

Acreditamos cegamente numa parte do divino
Numa lei e num país
Que faz dos humanos bovinos
Mas o que é que nos move
A sair da bola nove?
Queremos o destaque
Queremos o melhor
Mas por vezes fuma maconha
E quando dá na telha cheira pó

Vai ver é frustração
por parte da negação
Ausente de ação
Por forças que nos arrebata,
nos lança na contra mão
To entrando em depressão
Dá remédio e distração!

Não existem doentes
A realidade é uma doença
Ainda que longe de enxergar
Mas nos mata por afetar
E por nos deixarmos afogar

Se a vida é dividida em dois
Porque sou terceirizado?
É porque em quartos de tempo
Nossa estima vai pros quintos
E ansiamos a sexta-feira
Pra no findi se afogar,
da coleira se libertar,
Mas na segunda nos assistimos
Iludidos em classe primeira

Minha mãe é faxineira!
O meu pai catou papel!
Meu avô morreu de cirrose!
Minha prima é de bordel!
O meu tio morreu de AIDS
Suas sobrinhas perderam os pais
O câncer só deixou a avó
Que setuagenária tira o pó
E os irmãos da última geração
Não se falam, não falarão

Pra que quer estar no topo,
Moço de alto calão,
Preparado pra lutar,
vencer na vida e celebrar?
Essa porra não existe
O que existe é ilusão
Moço de terno que aparece
Pra dizer quem é o patrão
Pra ditar o sim e o não
Pra ativar o seu ego, então
Quer o melhor pra ser soberbo
E viver em retaliação

Vão pra puta que pariu
Ser humano toma doril...

Animal Racional

Como é pro ser humano
viver debaixo do pano,
aguentar ferroada de cano
e não ver que voam tucanos?

Ou como é pra uma pessoa
estar sentada à toa
assistindo o tempo que voa
se afogando em uma lagoa?

Como fica pra esse animal
sabendo que tem ancestral,
mergulhar-se no banal
fazendo questão de ser boçal?

Se imagina outros planos,
Se afoga na lagoa,
Se continua boçal,
por que ser chamado racional?

sábado, 31 de março de 2012

Prefeitura de Santo André passa por cima da população

Não adiantaram as assinaturas do abaixo-assinado, a representação na Câmara, as discussões com os trabalhadores e as opiniões públicas negativas... a prefeitura de Santo André passou por cima de tudo! A intenção é fazer uma rotatória, cortando a praça Rui Barbosa em Santa Terezinha, prejudicando assim a comunidade que transita todos os dias por ali.

Os aprendizes da Escola Livre de Teatro por três vezes pararam as máquinas, a favor da comunidade, mas não são apenas os alunos que vão sofrer.

A praça está abandonada, fato, mas a responsável pela conservação deveria ser a Prefeitura, correto? Correto! Se não há iluminação adequada, se o mato está alto, se os muros estão pichados, se não há segurança suficiente, qual é a solução? Acabar com tudo? Não! A solução é resolver conscientemente, transformar a praça num lugar de convivência. Pois há o público do Teatro Conchita de Moraes, do cartório, da igreja, da escola Profª Carlina Caçapava de Mello, aprendizes da Escola Livre de teatro, fora que no projeto, para a rotatória ser realizada a rua tem que ser rebaixada, acarretando em alagamentos e enchentes que já decorriam quando a rua existia em 1997. A rua foi transformada em praça justamente para minimizar os riscos de acidentes e prevenir tudo isso que foi falado aí em cima.
Agora a questão, por que depois de 15 anos é destinada verba pra voltar a fazer o que já era? Não poderia ser melhor aproveitado esse dinheiro? Ou essa obra existe justamente pra ele ser aproveitado?
A praça é do povo mesmo, segundo Castro Alves, ou a praça só existe pra atrapalhar caminho de carro?

Houve um manifesto hoje na praça, uma ação para que as pessoas vejam que estamos preocupados com tudo isso, com barulho, público, poluição e com o meio ambiente. Somos indivíduos, pagamos impostos, temos direitos e reivindicamos por eles!
Algumas fotos da nossa ação contra a rotatória, a favor da revitalização:










































CARTA ABERTA À COMUNIDADE SANTA TEREZINHA E AOS FREQUENTADORES DA PRAÇA RUI BARBOSA

"A praça é do povo!
como o céu é do condor." Castro Alves 

Uma reforma existe para transformar algo para melhor, certo? Mas não é o que vem acontecendo na Praça Rui Barbosa.
A Praça inclui um cartório, a Igreja Santa Terezinha - onde acontecem casamentos regularmente - a Escola Livre de Teatro e o Teatro Conchita de Moraes, além da escola Profa Carlina Caçapava de Melo. Por ser um local de grande fluxo de pessoas, era de se esperar que a reforma, que já está acontecendo, transformasse esta praça num lugar seguro, feito para o encontro da comunidade, para noivas tirarem fotos após o casório e para receber o público que vem ao teatro.
Esperamos que tudo isso aconteça e que a praça saia do abandono absoluto em que esteve nos últimos quatro anos, maaaaas... Surpresa!!! Uma rua será aberta e passará pelo meio da praça, retirando árvores, isolando e tornando-a, portanto, mais vulnerável à marginalização e uso de drogas, perda de espaços de convivência e lazer, além do grande perigo representado pelo fluxo de carros para as crianças e jovens das várias escolas do entorno. Outro problema sério é que o rebaixamento da via intensificará o já recorrente problema das enchentes que ocorrem todo ano, fato que é extremante preocupante para todos na região.
Queremos que a praça seja transformada num lugar iluminado, bonito, com academia ao ar livre, eventos regulares como feiras e shows para a população do bairro Santa Terezinha, com visibilidade, sendo retirados, por exemplo, as estruturas de concreto e que o problema do trânsito na região seja resolvido de outra forma – que não acarrete prejuízos ainda maiores para a população local.
O gasto excessivo com a abertura desta via pública seria melhor utilizado com a reforma da praça e seu entorno tal como ela é. Somos a favor de uma reforma bem pensada e que concorde com as necessidades da comunidade.
QUE A PRAÇA NÃO SEJA CORTADA AO MEIO! A PRAÇA É DO POVO!

Meu ponto

Tava voltando da casa depois do dia longo no trabalho. Pra fugir da rotina, resolveu comprar uma cerveja, só pra sair da rotina. Chegou no ponto e esperou... A garrafa também esperou. Nem gostava muito de cerveja, mas parecia maravilhoso fazer isso num horário daquele numa sexta feira.
Os ônibus iam e vinham... iam e vinham... frustradamente...
Bebeu e mediu o que faltava fingindo observar o rótulo. Umas quinze vezes repetiu, ora observava as excentricidades, ora olhava esperançosamente canino pro caminho em que os ônibus vinham, perguntou sobre os horários que ainda restava, com um pouco de dificuldade caminhou até a lixeira e se livrou finalmente da garrafa... confessava-se meio alto.
Voltou pro ponto inicial, inquieto, colocou as mãos nos bolsos, bufou, e se foi, ficando cada vez mais longe, mais longe, mais longe...

Hora do Planeta (e Casseta!)

Hoje aconteceu mais uma "Hora do Planeta", uma hora "contra o aquecimento global" em que ficamos uma hora com as luzes apagadas...
Mas o que será isso? Um protesto, uma intenção ou uma perda de tempo?
Não consigo enxergar muito sentido numa ação como essa, aonde estão as atitudes concretas para contribuir com um mundo muito mais leve que este?
Pois nego que fuma e taca a bituca na rua, não tem moral pra apagar a luz e falar de aquecimento global! Depois de um dia frio, um banho de chuveiro quente demorado, se a correria manifesta, o primeiro pensamento é comprar um carro, se a árvore atrapalha a sua janela ou a fiação, retira-se, e ainda que o mundo ameace explodir, fica mais fácil construir um abrigo subterrâneo a pensar em algo pra que isso não aconteça.

Assembléia não resolve nada, de boa intenções há ditados populares e, já que não teremos distrações alimentadas pela energia elétrica, por quê não pensamos um pouco mais enquanto o corpo está no escuro pra tirar a cabeça do breu, ao invés de ficar na internet do celular ou só apagar a luz da sala?

quinta-feira, 29 de março de 2012

Nós

Difundido, expressivo
Povo vive à esmo
controlado, enjaulado
e reprimido por si mesmo

Povo forte, povo avante
Vai de trem e pega o bonde
pega ônibus, o trilho
Só não pega a sorte grande

Tem valor imaterial
mas não sabe, não fala
foi podado, decotado
desterrado, empacotado

Todos nus no mesmo barco
vestindo o cotidiano
que se prende, que se mata
inda é corinthiano

Não entende
Não se entende
chamam de ignorantes
Quem entende
Que se entende
Tem algo de retirante

Tem algo de centro-avante
Tem algo de delinquente
Tem algo de papagaio
Tem algo da nossa gente

Sangue rosa
Sangue ralo
Sangue altivo
Sangue forte
Dá uma cara a tapa e a roupa
Só não fala o que não pode

No trem é estátua traumatizada
No trabalho é trato feito
Na família é sossego
És humano ao travesseiro

Mas um humano sem meio
Mas um humano com medo
Que veste a cara da batalha
pra feder como esterco
Posso encontrá-lo no espelho
Podes encontrá-lo no espelho
Está atado em atrações
Desatado do eu inteiro.



terça-feira, 20 de março de 2012

"Pode o TEATRO falar sobre o presente?" - O Drama Burguês

Semanalmente aqui eu vou colocar resumos das aulas teóricas de Pedro Mantovanni sobre este tema "Pode o teatro falar sobre o presente?". A escrita aqui trata-se de um texto produzido através das minhas anotações e entendimentos do assunto, vale ainda pesquisar mais sobre se o seu interesse for maior. Aqui, minha humilde transcrição do aprendizado.
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O teatro não tem uma única essência, existem teatros e teatros ao longo da história.
Agora, o que é o presente? O teatro pode falar sobre o presente? O grego não faria esta pergunta, pois os gregos vêem o tempo cíclico, seu tema principal é o mito, a problematização dos heróis que são dependentes do tempo, para eles o mundo sempre existiu e nunca vai terminar.
Mas para o homem medieval o tempo já está determinado pela providência divina. Então, ele utiliza-se de exemplos do que já foi feito para continuar vivendo, uma repetição de ações e pensamentos, afinal o homem não fazia parte da construção do novo, tudo já estava estabelecido. A forma teatral medieval é a missa, a religião, a salvação. O que interessa a ele é o evangelho. Para o homem grego é o mito.
Portanto, a pergunta tema trata-se de uma pergunta moderna.

No tempo da sociedade burguesa (séc. XV a XVIII), existe a ideia de que o passado e o futuro se estendem ao infinito. O passado ficou pra trás e o futuro ainda nem existe. Há um espaço para o novo, daí a valorização do tempo presente.
No mundo moderno o mito e a religião deixam o centro para o indivíduo. É o momento em que a pessoa tem escolha sobre seu próprio destino, é o que se chama de Ação Eletiva. Afinal, o futuro está aberto, ele não é mais determinado.

Surge nessa época o Drama Burguês que, em seu auge, é um gênero teatral que aparece com a burguesia. Diderot é o teórico do Drama Burguês, que não dá muito certo. É a burguesia inventando um teatro onde seus valores estão imbuídos de forma indireta, pelo drama.
Este gênero tem duas funções:

- A moral, segundo seu tempo. Ele acha que o teatro tem de ser transformador. Entende-se por transformador: esclarecer os homens, racionalizá-los; ensiná-los a amar a virtude e a odiar o vício.


(A moral é determinada por homens como um conceito de atitudes e ações aceitas pela sociedade, nada tem a ver com a política, polis, ou seja, com o que acontece na cidade).


(Virtude= disposição para seguir aquilo que é considerado regra, moral admitida numa época por um conjunto de homens em seu momento histórico).


- Outro aspecto, além da moral, por o presente em cena, de forma secundária, afinal, seu interesse é moralizar.

Pois, como é possível transformar o espectador? Para Diderot, você tem de agitar o público, transtorná-lo, levá-lo às lágrimas. Teatro ali não é a palavra, são as expressões faciais, os gritos, o corpo. Esse é um teatro ilusionista, é levar a platéia a crer que aquilo que está acontecendo ali é o que acontece no mundo, é o real.
Pra isso ele cria dois "gêneros intermediários"
- A Tragédia Doméstica
- A Comédia Séria
(Comédia é tratar de assuntos baixos do cotidiano, tudo de forma ilusória).

Neste ponto ele democratiza o teatro, afinal não são mais os reis e rainhas que figuram como personagem, é também a burguesia, o trabalhador. É a natureza humana, a sentimentalidade sua estratégia teórica, que tem a ver com interesses específicos. Ele vai mudando quem é objeto sério e quem é objeto de riso.
Diderot é o teórico do realismo, mas para ele realismo tem a ver com produzir um efeito do real.

O foco disso tem uma dimensão privada.
Ele considera o mundo privado o centro do teatro, figurado na família burguesa. E faz isso porque a família é o espaço ideal para o culto da virtude, a família é um bem supremo, único lugar onde se pode ser feliz, pois lá fora é o lugar da competição. Aí ele privatiza o teatro.

Lembrem que: teatro não é isso, isto é um teatro.

Diderot não separa conteúdo e forma. O drama ali é um teatro fechado para a relação interpessoal, a imagem do homem liberto das coerções externas. O centro do drama é a decisão do homem à partir de sua ação e vontade naquele momento.

Nota: nada mais interessante pro capitalismo que o homem seja senhor de seu destino, assim ele pode competir livremente, sem culpas ou moralismos, ele pode determinar o seu futuro sozinho e por qualquer meio.


O drama burguês, portanto, fala do homem que é livre e que só através do diálogo ele realiza suas vontades. Não há prólogo, prefácio ou posfácio, só existe o momento.
Neste drama não há futuro previsto, ele sempre é aberto para o novo. Só existe situação, personagem e diálogo. Situação, personagem e diálogo. Situação, personagem e diálogo. As palavras são só aquelas que saem da boca do personagem. O autor e a narrativa, no sentido figurado, desaparecem. A profundidade está no indivíduo e na privatização, não há mundo externo, não há influência externa, só existe a família.
Nesse ínterim, o espectador é um espectador passivo, que se constitui numa identificação pelo irracional. Se eu me identifico com o personagem, eu compro a dramaticidade, eu aceito para mim sua sensação e não penso ou discuto sobre ela.

Exemplo: filmes de Hollywood, quem nunca se colocou na situação da Rose e chorou quando Jack morreu congelado depois do Titanic ter naufragado?


A ação deste drama, aberto ao futuro, trata de ilusão, que trás uma imagem do que promete ser a modernidade: você vê a peça e constitui uma imagem do que é o presente.

Já o Teatro Moderno critica a imagem que a burguesia faz, mas sem negá-la, ele mostra que você é livre, mas questiona isso, critica o presente e promove abalos nesta realidade.
Mas isso fica pra próxima semana.

Evoé.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Idiotismos

Semana passada tive uma puta aula na ELT, que eu ainda vou postar aqui num #Diário de Bordo.
Depois da aula fui pegar o trem, pois o banco da minha bicicleta estava zuado e pra não lesionar meu joelho resolvi pagar o absurdo preço da passagem.
O bilheteiro não me deixou embarcar com a bike porque, segundo ele, só podia aos finais de semana. Fiquei paralisado. Por que DIABOS às 22:50h eu não podia entrar no último vagão de um trem da linha Turquesa para descer duas estações depois daquela? "Não posso"? No cu!

Não me venha falar que o cara tava cumprindo ordens, eu deveria tê-lo chamado de otário! Depois de sair de uma aula magna, onde um dos temas discutidos era a separação do mundo em instituições para que se REINE melhor sobre os idiotas, que somos nós, o cara ainda vem me dizer que eu não posso embarcar por causa do que ta escrito na placa?! O que ele esperava com essa atitude anti humanitária? Um aumento? Não desconfiaria que essa tivesse sido essa a resposta se eu tivesse feito a pergunta.
Ele não tinha que pensar que recebeu ordens e não pode deixar de cumpri-las, afinal ele nem sequer pensou sobre essa "regra", era tarde, o trem estava vazio, havia um cara em sua frente com um problema, o que custava? Ou isso ou correr o risco na Av. do Estado, mas tudo bem né, o problema não era dele! Vamos olhar pro nosso próprio rabo e esquecer que vivemos em sociedade!

Fecha a conta e passa a régua que eu vou encher a cara.

domingo, 18 de março de 2012

Renúncia

A mão não toca o ombro
Tudo se paralisa em olhar
de pele branca e alma negra

Quando não dissimulado
é pesado e mal disfarçado
de lupa, que só queima

A mão segue inerte
e impede outro contato
que os olhos não conseguem

O que os olhos conseguem
é transmitir a emoção
na ânsia de expurgá-la

Óh, impotência nossa
por que lhe somos inerente?
Quanto choro me arrancaste

Os dedos já nem podem
penetrar aquele olhar
que de seco pereceu

E o que havia entre os corpos
tudo desapareceu
sem haver existido

Quando olho eu sempre digo
Poderia ser diferente
mas o mas responde à gente

E quem podemos culpar?
Não há
Não há.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Amor, Drogas, Insanidade... tudo igual!

É impressionante como buscamos nossa fuga em coisas "mundanas" e sem consequências pro inconsciente. Somos figuras frágeis que se fazem de forte pro exterior e pro interior de nossa bagunça sentimental.

Drogas= vício pelo prazer fácil e desimpedido. Endossamos nossas camadas de sensações com plantas suspeitas e substância ilegais.
Álcool= elixires de uma maluquez de inconstâncias incrivelmente estranhas.

A insanidade é o melhor lugar para se estar quando não se está. A insanidade só pode ser forjada por problemas pequenos ante o mundo em que habitamos. O sofrimento é a preliminar da insanidade. E a insanidade é a preliminar das consequências desastrosas.
Como não gostar de se matar diariamente se morremos a cada dia sem querermos? Por que proibir de se matar se nos matamos por condição imposta e interdependência adquirida com a idade?
O leite que antes mamávamos no conforto do seio de nossas mães agora é buscado em bicos de garrafas, latas, piteiras, cápsulas, seringas, bocas, afetos, palavras, quereres...
O pensamento comum é uma droga e não a droga um pensamento comum! Cada um tem a sua e a sua sensação. Sua droga é o trabalho, a minha a livre escolha.
Buscamos a sensação de bem estar que não depende de nós e a tomamos em nossas mãos. Para nos sentirmos livres e senhores de nossa alma, para abrir a percepção de nossa capacidade cerebral, animal.




































Eu estou esperando trezentos e sessenta e cinco dias por uma ligação, trinta e quatro anos espero uma mensagem, umas quatro décadas por um oi de qualquer jeito e cinco séculos por um sinal de afeto...
Você é quem? Um anjo ou um ser humano?
Por que os anjos são tão passíveis de desconfiança quanto sua existência e os humanos tão limitados em seus egos e pensamentos? Gostaria de ser e amar um cachorro, para permanecer na pureza e morrer definhando ao lado do que definha comigo. Definhar o corpo e manter forte a sensação no coração. Sobreviver de carinhos e ossinhos e nada mais!
Sabe quem sou eu? O Insatisfeito. Quando não te quero mais, percebo que te quero muito.
O amor não sobrevive se não for droga.
Vou me drogar...


[Adele - He Won't Go]

Pra que?

Estou acabado, afogado em sensações amorosas, derrotado, entristecido, envergonhado.
Melancólico, sofrendo de agonia, sem calmaria, coração pesado, enegrecido, empalamado.
Sou egocêntrico, encefálico, querendo que o fim acabe, esperançoso, esperançado.
Preciso disso, de alegria, de simpatia, tranquilidade.
A liberdade, sou desse estofo, não quero mofo, não sou estacado.
Preciso ouvir, indiferentes, ou diferentes, indignados.
Minha alma briga, por uma vida, sem uma intriga, com amizade.
Odeio série, ou novelas, em minha vida equiparados.
Quero expirar, sem inspirar ou relutar ou alarmar.
Não rotular, analisar, catalogar ou esperar.
Não sei se sou, só sei que quero, só sei que espero sem paciência.
Sabe o que quero? Eu quero oásis, eu quero paz, livre-mente espero.
Por um amor, se quer morrer, por não amor, se quer morrer.
Pra tudo se quer morrer, é por nos acostumarmos a viver.
Ou simplesmente sobreviver.
Ou simplesmente desvanecer.
Irritação.
Consolação.
Sozinho.
Solidão.
Só.
Se.
Vão.
Sol.
Irmão.
Só.
Irmão.
Sem.
Zen.
Quem?
Eu?
Não!
Perturbação...

sábado, 10 de março de 2012

O que é a moda?

O que é a moda senão uma tentativa frustrada de fazer as pessoas melhores? E nessa ânsia por transformação para o melhor, ela, a moda, não acaba por transformar demais a ponto do não auto conhecimento ser mais forte do que a auto afirmação? A moda não deveria fazer parte da identidade ao invés do lifestyle consumista?

Se a moda foi engolida pelo capitalismo, logo a personalidade e a identidade se tornam mercadorias vendáveis ou meramente ilustrativas, perdedoras para um padrão que casa estilo e comportamento.

Somos, então, seres sem personalidade que buscam nas roupas um reconhecimento de sua atitude ou somos apenas seres que acham que isso não tem a menor importância?

sábado, 3 de março de 2012

Ser

Aonde está o problema
em pegar a bicicleta
vender bolo ou adesivo
sem ver faixa, sem ter seta?
Não tem trouxa na minha testa.
Não tem horário abusivo
não tem gente inquieta
não tem chefe irreal
nem paredes muito retas
de uma mente sem astral.

Eu não quero viver nisso
Eu não visto social
me recuso a por a máscara
da mentira colossal.
Eu não quero ter juízo
Eu quero sair descalço
sem alimentar os malditos
que andam de motor no asfalto
Eu quero pedalar
pensando sem pensar
sem pressão, sem tudo ou nada
sem gente apressada.

Por que conviver é tão pesado?
Vai ver a culpa é do trabalho
que causa a apatia
de viver sempre amarrado
Devia ir mais à praia
Devia olhar as calças
Devia olhar as saias
Me permitir
e me amar
To querendo me encontrar
mas tá difícil de achar

Não vou me contaminar
quero sair desse lugar
não quero engolir mau trato
ou trato abstrato, ou contrato.
Pode ser que eu me renda
Pode ser que eu aprenda
Mas tem gente que não sente
este ser está pesado
este sem comunidade
um dia será arrebatado.

Hora da Brisa: Fato Verídico

Sabe o que eu tava pensando...? Já esqueci!
Hahahahaha.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Hora da Brisa: A Beyoncé virou mamãe

Não conseguimos aceitar a mudança de outra pessoa quando o eu anterior era mais legal pra gente, independente de seu crescimento pessoal.
A Beyoncé era Fierce, depois virou mamãe. O que ela vai fazer agora?
Marcela: Vai fazer que nem a Xuxa.


A pergunta é: fazer O QUE que nem a Xuxa???
Huhashashusahusauh...

[ESTUDO] Fuente Ovejuna - Lope de Vega

O governo segue a máxima do dividir para reinar, quanto mais conflitos houverem entre os governados, mais remota será a possibilidade de sua união para resolver questões que lhe atingem por parte dos governantes.
Em Fuente Ovejuna, o personagem do Comendador contrariou essa máxima. Ele entrou em conflito com uma minoria da população sem que essa minoria tivesse conflito com as outras partes da sociedade. Não houve desengajamento nesse caso, houve um engajamento contra o poder, promovido de modo indireto justamente por aquele que deveria fazer o oposto.
Bauman diz que tendemos a resolver questões individuais por meios coletivos, foi o que aconteceu. O estopim da revolução se dá com a personagem de Laurência gritando por justiça após ser violentada. Nesse ínterim, convoca essa minoria oprimida e provoca as outras partes da sociedade que, por serem um povo unido, compartilhavam seu sofrimento.
A união dessa massa, além de derrubar o poder opressor, se tornou ainda mais consistente quando defendem sua ação com um combinado que não foi dissolvido diante da mesa de tortura. Lope de Vega mostra que, de fato, o engajamento e a união dos governados pode derrubar qualquer poder. Bauman nos abre o olho para o que ocorre na nossa era contemporânea e nossa pouca ação diante disso.

Idiossincracia

O que Marília via era uma comitiva de formigas andarilhas, que percorriam sua vida de maneira degenerativa, pouco convidativa. Já faziam dias que não recebia visitas, a roupa se desfazia, os móveis se desfaziam, até sua auto estima se desfazia. Tudo era levado pelas inimigas unidas que não desistiam de seu objetivo de vila.
E já tentara de tudo, de venenos a outros seres pequenos, tentou matar, tentou tamanduá, tentou molhar e nada... só o que fazia era ver sua figura que jazia encostada, sem poder fazer nada.
Um dia, sua melancolia lhe tirou da apatia. Resolveu, de supetão, seguir aquele cordão que lhe causava comichão. A fila dava no porão, pra sua surpresa. E tudo estava uma beleza. Todos os mantimentos, tirados sem o seu consentimento, estavam dispostos como negócio: o que seria consumido, o que seria abatido, como seria dividido; tudo estava organizado, até o que seria usado, suas roupas, seu armário!
Enquanto paralisada, travou em si uma batalha, que mudou sua idéia e, consequentemente, sua cara amarela. Transformou então a sua vida.
O que Marília via era sua figura de tia, antes sozinha, sem ninguém, agora parte da cooperativa. Tudo o que fazia era carregar o que havia para dentro do lugar, que tinha coisas que há muito tempo não conseguia enxergar. Marília, nesse dia, se tornou parte das formigas, e o que antes não tinha vida, agora sentia que existia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

[ESTUDO] Comunidade - Zygmunt Bauman


Bauman é, em alguns momentos, ácido em sua narrativa coberta de referências a pensadores, sociólogos e cientistas, tudo em prol de justificar seu ilustre pensamento.

O mito de Tântalo dá como lição que você só pode continuar feliz se mantiver-se alienado, ignorando a origem das coisas, sem tentar tomá-las em suas próprias mãos. Esse é o link com o "Comunidade". Se a comunidade passa a refletir, sugerir, questionar a si mesma, reiterar suas qualidades exaltando-as com lirismo exacerbado, perde imediatamente sua inocência. Perdida a inocência, nunca mais a comunidade vai desfrutar das "dádivas" que só eram permitidas sentir em seu estado.
Em suma, a era contemporânea, que busca a segurança em comunidade, está condenada à agonia de Tântalo, deixa escapar seu objetivo quando este lhe parece próximo às mãos.

A guerra contra a comunidade começou com a Revolução Industrial, quando indivíduos foram tirados de seus antigos hábitos e costumes para serem espremidos numa nova e rígida rotina no chão da fábrica. Os homens, com sua individualidade, foram transformados em massa trabalhadora.
Como passaram a produzir pela produção, não sentiam valor no trabalho que faziam e, para que nunca renunciassem ao trabalho, havia sempre pronta uma fiscalização pronta para brandir seu chicote se assim fosse preciso.
Aos poucos, esse sistema foi sendo substituído. Como o poder moderno consiste na capacidade de gerenciar pessoas, as forças que prendiam os trabalhadores nas empresas ficaram mais frágeis, pois, dada a incerteza acerca do próximo passo dos governantes, os governantes teriam pouca ou nenhuma chance de seguir novos planos, muito menos de se juntarem. O capitalismo promove a competição, tirando assim o caráter de união dos trabalhadores: quem trabalha mais, trabalha melhor, então ganha melhor. Neste caso, a sensação de "não há alternativa" foi substituída pela corrida rumo ao melhor, o que fez a obediência andar por conta própria.

A globalização tira ainda mais o sentido físico de comunidade das pessoas. Na luta pela sobrevivência, em que tudo e todos são instáveis, a probabilidade de existir um grupo de pessoas com uma biografia em comum durante períodos consideráveis ficam cada vez mais remotas. Uma massa de pessoas inseguras quanto ao futuro, divide e separa ao invés de unir os sofredores.

O governo pouco contribui para a construção de uma sociedade mais unificada, pois seguem a máxima do dividir para reinar. Eles promovem o desengajamento das massas, que, se tem pequenos conflitos entre si, pouco terão energia para pensar ou se unir para resolver conflitos maiores.
Nesse ínterim, os ídolos são uma espécie de fuga para as pessoas, um divisor de vidas por episódio. Eles vivem o que seria o "sonho de comunidade", afastando a vontade para o plano irreal do glamour. Tudo isso promove ainda mais o desengajamento.

É da natureza dos "direitos humanos" que os direitos individuais tenham que ser obtidos através de uma luta coletiva.
A luta pelo reconhecimento hoje em dia vai muito além do medo de "caras feias", ela atinge um nível muito maior e mais grave pois, aqueles que temem a diferença alheia, promovem os diferentes a diferentes. É o caso das cotas para negros, a privação dos direitos dos homossexuais, as dificuldades da nacionalização dos estrangeiros e de uma política amigável mundial, empregos e lugares específicos para deficientes físicos e um ideal cristão (sobretudo católico e evangélico) num mundo de múltiplas religiões e da não religião.
A sociedade não sabe lidar com as diferenças, pois querem acima de tudo que todos sejam como eles. É o caso da "minoria étnica", rotulados sem o seu consentimento. A sociedade teme que essas pessoas tenham destinos e lealdades divergentes dela, onde haja conflito de interesses, a aprovação vai estar sempre contra os que buscam, afinal, perturbaram a "ordem social" com sua "diferença".

O gueto é separado justamente por sua diferença étnico/social, onde há uma "raça" com o menor poder aquisitivo vivendo em locais distantes da grande maioria. Contudo, isso não faz de um gueto comunidade, pelo contrário, alimenta o ódio dessas pessoas, que vivem em humilhação e sofrimento. A experiência de gueto dissolve a solidariedade e a confiança mútua. O gueto é um laboratório de desintegração social.

A busca por segurança no mundo de hoje (individualizado e privatizado), é uma tarefa árdua que tem que ser realizada cada um por si. Todos buscam uma comunidade que não se afete pelas correntezas da turbulência global. No entanto, a busca por segurança requer um isolamento do resto do mundo, causando desconfiança para quem está do lado de fora dos muros e da cerca elétrica. Essa detenção pessoal elitiza algumas partes da sociedade, em geral aquela que tem dinheiro. Quando se está confinado em segurança, o que está do lado de fora parece assustador, perigoso. É um círculo vicioso, quanto mais segurança se tem, menos liberdade sente.

Como todos somos interdependentes, não podemos ser senhores de nossa própria jornada, sempre haverá um conflito externo a que temos que resolver coletivamente . É neste caso que a comunidade mais faz falta, e é também assim que mais tem chances de se realizar. Se houver comunidade, ela terá de ser obtida com sabedoria, respeito e conhecimento, e isso tudo parece tão longe em tempos como este.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Indiferença

O que é a indiferença? Indiferença é a displiscência da inocência, onde não faz diferença, só reticência. A indiferença também é a desavença pela carência. Quem prática indiferença tem a sapiência da paciência, e é notado pela alheia abstinência.
Para a indiferença há de haver malemolência, há de haver certa prudência. Indiferença é uma tendência a não preferência, é a conveniência da inconveniência, é a consciência de malquerência.
A indiferença é a crença em própria doença, sem licença de sentença, é uma puta falta de coerência, é a violência não violenta demandada pela persistência de gente sem experiência.
A indiferença é indiferente, e um dia toda a indiferença será questionada.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

iamamiwhoami #2

Mais vídeos e notícias sobre iamamiwhoami, aquela conta misteriosa do Youtube que já citei aqui e que agora pede citações novamente.

Não me lembro de ter visto, nos últimos tempos, vídeo tão estonteantemente genial quanto este, enviado no dia 14 deste mês:



Os comentários no Youtube estão recheados de teorias a respeito desse vídeo, tentando decifrar seu simbolismo. Acho que encontrei um que me convenceu.
Alguém escreveu que esse monstro peludo é a personificação de sua depressão. Ele fecha as cortinas, a coloca em um estado sombrio e quando se vai, por instantes, pela porta, ela parece menos abatida, tem luz na casa e há uma naturalidade maior em suas ações. Quando ele volta, com violência, e ela tenta se desvencilhar desse estado, até começar a dançar com sua depressão.
Poeticamente triste e dolorosamente lindo.

Li em um blog americano que iamamiwhoami faz o que ninguém em nossa era faz. O mistério e a não promoção faz com que os fãs de seus music videos sejam fãs verdadeiramente de sua arte. A promoção é a não promoção. Isso é difícil numa era em que se espera resultados e reconhecimentos imediatos, o que pede uma aparição imediata, e esse projeto fez exatamente o oposto, talvez seja por isso que esteja dando certo.

Num Grammy sueco, iamamiwhoami ganhou o prêmio de "Inovador do Ano", quem foi receber? Uma mulher anônima com um envelope que lhe foi dito para abrir no evento. Havia um pedaço de papel em branco dentro e tudo o que ela disse estar sendo autorizada a falar era "obrigada". Vídeo.

Todo mundo sabe que a cantora é sueca e se chama Jonna Lee, porém, a mesma nada disse sobre isso e o mistério acerca de quem está por trás desse trabalho fantástico ainda perdura. Há especulações sobre o lançamento de um álbum para Junho deste ano e coooom certeza, eu terei o meu! Pois não há como explicar o que sinto quanto vejo os vídeos maravilhosos de iamamiwhoami.
Isso é arte!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Eu exalo...

Pra ser sincero quero estar pleno de mim
Quero ser meu e enfim amar
Amar todo o ser e estar a fim
Com olhos e poros descobertos
pra sentir tudo o que há
é só isso que eu espero

Você eu tenho e agora pretendo voar
certo sendo assim de mim
Me livrar de consciência
e tatear a transparência
Tudo pra de fato ser!
Fazer do mau o bem estar
e, de instinto, transcender

Que sensação mais chata de se ver
que modo difícil de enxergar
Eu queria me arremessar
Me permitir, me libertar
Sem um modo de viver
Depois quando não se encontra
se vê parado em receio
sem subir e sem descer
e quando vai procurar no espelho
vê o que não queria ver:
um espantalho de você
É aí que se quer por qualquer meio!

A ti agora, quando te olho
sinto sanguessugas em meus poros
(me seguindo e me sugando)
se alimentando dos meus olhos.
É que te aprecio mais que a mim
e te assedio pra me ter
Pois atrás do que lhe dirijo
me redijo um "eu te amo"
E te entrego, perante meus olhos,
minha sensação
esmagada em nossos corpos

Eu
exalo
você
Me alimento de mim
e exalo você
Me
alimento
de você
e exalo a mim
eu exalo,

eu exalo...
sem me ver...
eu exalo...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Torpor

Sinto um tremelique atemporal de auto estima, duramente estimulado pelo tempo denso e tardio de maturação do estado de espírito. Dou-me às migalhas para mim e minto o meu eu nas tradições, torpores, estupores... eu sou um torpor, estigmatizado, tentando... tudo que tenho é tentativa, tudo que tenho é transtorno. Vivo uma violência mental vividamente ativa pela vida, logo se não a vivo, morto vivo.

A hora de morrer é o mato onde pisei, vai-se no mato que fumei, falo da morte que traguei. Pensar... pensar... pensar...

Se eu pudesse falar com meu cérebro lhe diria PARE! SINTA! PARE! CRESÇA! FODA-SE! ESQUEÇA! FODA-SE! FODA-SE! FODA-SE!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ontem

Ontem eu conheci uma garota encantadora, que me fazia enxergá-la com os sensitivos olhos do coração. Teria me aprofundado mais nela, se minha doença degenerativa chamada racionalidade não me fosse tão ridiculamente esmagadora. Mas ela bagunçou toda a minha cabeça, toda a minha visão de mundo, apenas por ser ativamente aquilo que eu acredito que o homem deveria ser.
Ela é humana, pura, também não cabe dentro de si, também tem doenças emocionais criativas, ela escreve, está para publicar seus poemas carregados de sensações... Suspirei por ela, me deprimi por ela, pois é aquilo que eu preciso pra mim. Preciso viver assim, é como se eu tivesse encontrado a forma de viver, embora não saiba usá-la, e é o que ela faz... vive. Independentemente independente! Viva Lívia...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Será que não estamos sendo afogados?

Eita, ta todo mundo acreditando que a proibição das sacolas plásticas no mercado, e um valor para elas, só serve para desestimular o uso e, dessa forma, colaborar com o meio-ambiente... Hello! Vivemos no mundo capitalista, meu nego, da pra tirar uma grana até dessa história de sustentabilidade, que ta super na moda!

A única moda deveria ser o reaproveitamento da reciclagem vista como arte. Segue nesse trajeto a produção pela produção, mas pelo menos (se é que existe isso) ninguém está sendo enganado, a menos que se descubra que o que se diz "reciclado" seja pirateado também!

Mas o que se pode fazer, enquanto vimos todo o nosso meio ser feito de idiota?
Me drogo da ideia de que o conhecimento é a revolução mais poderosa hoje em dia, mas isso enquanto a maioria não tiver conhecimento. Nossa missão nesse mundo é transmitir conhecimento, é plantar essa semente e torná-la sustentável!

Não se esqueça e não se iluda, a realidade é diferente:


Fecha a conta e passa a régua que eu vou encher a cara.

Hora da Brisa: Doença Burguesa



'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da
'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas
enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado
sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou
oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,
constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres
invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu
comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma
percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão
social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de
R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição
de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode
significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o
pesquisador.


O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não
como um ser humano. Professores que me abraçavam nos corredores da USP
passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes,
esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me
ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão
,
diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma
garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha
caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra
classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns
se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo
pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e
serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num
grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei
o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e
claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de
refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem
barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada,
parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca? E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar
comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí
eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo
andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na
biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei
em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse
trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O
meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da
cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar,
não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.


E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a
situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se
aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar
por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse
passando por um poste, uma árvore, um orelhão.


E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.
Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.

Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa
deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.



Quando você se depara curado dessa doença, se sente humano de verdade!

domingo, 29 de janeiro de 2012

Etílico

Marília estava ofegando. Deu por si em um imenso canavial sem visível fim. Estava frio, estava escuro, uma brisa sacana arrepiava os pelos de sua nuca e enregelava suas costelas.
Não parecia haver luz de esperança em raio de fim do túnel nenhum. Caminhava descalça, apavorada, pisando em coisas que dilacerava a pele de seus pés. O trapo que vestia se desfazia à medida que avançava pelo mato alto. Indiscutível e até impreterivelmente, um farfalhar acima de seu próprio horrorizou sua cabeça. Petrificada, Marília virou seu crânio para a esquerda, a respiração mais desandada que escada rolante. Prosseguiu andando, resolvendo-se, tentando não pisar forte e ao mesmo tempo não andar devagar. As canas agigantavam-se passo a passo, seu medo também. O farfalhar então se espalhou como uma onda sonora representada.
Sem aguentar mais, Marília correu, deixou pra trás alguns pedaços de seu corpo e gotas de seu sangue, apresentou-se à escuridão sem hesitação e caiu, sem lua pra assistir.
O chão heterogêneo se enterrou em seu rosto, queria abrir o canavial como porta e encontrar um céu azul iluminado, mas tudo girava independente dos olhos. Ali mesmo, Marília adormeceu.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Que porra de ser humano é esse?

Nuti sabia que só o que podia fazer

era transmitir essa sensação de paz

e felicidade, que moviam sua vontade

de viver, tais como a gana por chegar

aonde quer. A ambição não é um mal,

é um motor, e não tê-la é tão unicamente

temível quanto tê-la. A frustração é o

pior dos monstros pessoais e a ignorância

é o poço que escalo diariamente.Tenho

fome e sede de realização e comunicação.

Minha patologia é a imaturidade e a

inclinação à perda de tempo aguda, aliada

à porra-louquice e à vontade de vadiar.

Que porra de ser humano é esse, belo em

complexidade, perturbado em pensamentos

(dependendo de sua vibe momentânea) e

sedento de sucesso? Eis a resposta:

É a porra de um ser humano!


Que a força interior seja unânime!